Neste sábado último, fui comemorar a efemeridade da vida num bar, junto com mais alguns beberrões plantonistas nesse início tão “cameloso” do ano.
Risadas incontáveis, tombos, queimaduras de isqueiro, pesquisas sobre tabaco, guerra de cerveja, arremesso de sal (?), pizzas, copos quebrados, e tudo o que podemos figurar num bar à beira da Av. Paulista, numa tarde/noite de sábado.
Mas em meio ao caos, apareceram dois “mendigos” que me provocaram reflexão. Coloquei “mendigo” entre aspas porque, realmente, acho um termo marginalizado demais para definir pessoas que, apesar de tudo, estão em busca de dignidade. Alguns não, evidentemente.
O primeiro deles foi o João, quase um José. Ele entoava uma espécie de mantra interminável, mais ou menos assim:
“Seja homem. Todo homem é homem. Seja homem em qualquer lugar do mundo. Todo homem é homem.”
João aparentava estar altamente ébrio, mas, assim como eu, ninguém da mesa sentiu qualquer resquício de álcool vindo dele. Trajava uma roupa cinco vezes maior que seu corpo, bem desgastada, num verde/cinza pálido, totalmente sem vida. Pediu um cigarro e continuou a proferir suas palavras. Como era de se esperar, o garçom e o gerente fizeram a mobilização para a expulsão (queria usar o termo “retirada”, mas eles foram grossos o suficiente para expulsarem) de João. Chegou a comentar alguma coisa sobre sua mãe, que, na confusão, mal deu para ouvir. Cabe agora tentar encotrar alguma coerência em suas palavras. Eu não acredito que falasse aquilo à toa… Não mesmo. Seu rosto denunciava a passagem de mais de meio século e seu olhar permaneceu firme, apesar de nublado pelo sofrimento, talvez. João parece ter sido um quase galã durante sua juventude, mas fiquei sem dados sobre essa parte.
“Seja homem”. Mais do que necessário na nossa sociedade. Acho que vocês acompanham a degradação paulatina (ou não) do caráter e comportamento das pessoas, principalmente em uma grande metrópole, regada de valores instantâneos, moldados numa volta de relógio. Se lembrarmos do que lemos e estudamos (alguns até viveram), antigamente existia a honra e a palavra. E hoje?
“Todo homem é homem”. Essa parte aborda toda a essência que nunca morre, apesar de ser tão camuflada que quase se extingue. Mas existe, está alí e precisa ser remexida e trazida para a realidade. Hombridade, meus amigos.
“Seja homem em qualquer lugar do mundo”. Evidente apelo à permanência do homem universal, que engloba os valores-passaporte para o entendimento e troca, para a comunicação em si. Diplomacia, talvez?
Isso tudo pode aparentar ser um pouco profundo para apenas um “mendigo”, mas eu mantenho minha crença de que eles enlouqueceram ou estão à beira de enlouquecer justamente por terem captado o sentido disso tudo. Não de completamente todas as verdades, mas creio que a loucura não é um produto gratuito. Ou perderam as estribeiras por tentarem entender e nunca conseguirem, justamente pela marginalização inconseqüente.
Outro personagem que participou da roda, foi Luiz Carlos. Levava a música consigo. Cantamos Trem das Onze juntos e quando tentei perguntar alguma coisa para ele, pediu para deixá-lo terminar de cantar outra canção que eu desconhecia. Quando o gerente veio expulsá-lo, assim como fez com João, Carlos exigiu respeito dizendo: “Sou pai e avô, não venha me tirar daqui!”. Ele também pediu um cigarro e tentou enturmar-se conosco, por minha culpa, admito, pois tive a idéia de perguntar o nome dele, como perguntei para João.
Incrível como pessoas que passam despercebidas, que são retiradas dos lugares, que não recebem confiança, têm coisas para contar e transmitir. Acredito que a lucidez mais aparente de Luiz Carlos se deva ao fato da música acompanhá-lo, a primeira arte de todas as outras, a que rege o mundo, na minha opinião. Uma pessoa que não canta, que não se emociona, que não vibra com choro ou felicidade ao ouvir/cantar uma canção, tem um parafuso a menos. E desses parafusos que fazem falta e incomodam mesmo a quem não os têm. E Carlos os tinha.
Não quero questionar as razões deles existirem nas ruas. Não quero saber se é culpa do governo, culpa deles que não correm atrás, culpa da sociedade, culpa da família… Não quero questionar isso agora. Quero apenas colocar que eu aprendi uma lição: todo homem merece respeito. Ambos estavam tentanto resgatar sua dignidade ausente. Por motivo de perda ou roubo? Já não sei. E não me importa. Todo homem merece respeito.




26 02 08 at 12:20 am
Parabéns Rachel.. gostei muito das idéias, e a forma como você escreve me lembrou um poema:
“Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”
Carlos Drummond de Andrade
26 02 08 at 2:13 am
Mendigos são amigos. E são honestos, senão já não seriam mais mendigos.
Tô sempre pensando neles e vou começar a orar também.
Beijos, Ray.